Eu sempre me senti só. Minha mãe não me dava atenção, eu quase nunca via meu pai e meus amigos, eles sempre iam embora e eu sempre acabava sozinha. Foi assim no maternal, na oitava série e agora de novo. O que adianta você conseguir alguma coisa se você não tem pra quem dizer que a tem? É muito ruim não ter com quem conversar, com quem ouvir sua música favorita, comer pipoca assistindo um filme de terror, não ter alguém que mande mudar sua roupa, porque ela não está combinando. Não desejo a minha sorte pra ninguém.
Foram poucas as vezes em que eu me senti bem, sabe quando você vai para praia e não é um dia de sol, não é nada bom, mas depois as nuvens ficam mais pesadas e acaba chovendo, trazendo um arco-íris escuro junto ao mar? Era assim como eu me senta, mesmo sofrendo eu tinha algo pra me amparar. Mas o problema é que terminou o colégio e cada um seguiu em caminhos diferentes, eu que nunca fui bem com despedidas percebi bem essa mudança, agora nem perto das minhas lembranças eu podia ficar.
Minha mãe tinha se separado de novo, mas ela, diferente de mim, se apaixonava e se entregava, sempre casando. Dessa vez, ela cai se casar com um irlandês e como já terminei os estudos ela resolveu ir morar com ele. Eu não podia dizer não e nem queria morar com meu pai, acho que a última vez que o vi eu ainda tinha dentes de leite e ele é muito orgulhoso pra me querer, de qualquer forma, no final eu ia ter que ficar com a mamãe.
Espero que o cursinho de inglês tenha servido pra alguma coisa, porque se eu tenho que me mudar pro fim do mundo, chamada Irlanda, vou ter de me preparar. Não vai ser fácil longe de tudo e de todos.
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